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UTOPIA

VAMOS IMAGINAR QUE TUDO ESTÁ BEM, QUE AS PESSOAS AMAM, QUE NÃO HÁ HIPOCRISIA E NEM O RANCOR. VAMOS FINGIR QUE A CRIANÇA DE PERIFERIA NÃO PISA NA LAMA, QUE TEM SANDÁLIAS PARA CALÇAR. VAMOS FINGIR QUE A PANELA NÃO ESTÁ VAZIA, QUE HÁ PÃO PARA TODOS, QUE O RACISMO FOI BANIDO JUNTO COM A SENZALA, QUE TODOS TÊM CONSCIÊNCIA, QUE A GUERRA ACABOU, QUE A VIOLÊNCIA É SÓ COISA DE TELEVISÃO, QUE NÃO HÁ MERCENÁRIOS, NEM CARNIFICINA DE INOCENTES. VAMOS IMAGINAR QUE A LIBERDADE EXISTE, QUE NOSSOS INIMIGOS FORAM DETIDOS, QUE AS CRIANÇAS ESTÃO SALVAS, QUE OS BONS ESTÃO LONGE DO PERIGO. FINGIR QUE NINGUÉM COME LIXO, QUE HÁ PARTILHA, QUE TODOS TÊM AGASALHO. FINGIR QUE A JUSTIÇA DEFENDE OS FRACOS, QUE O BRASIL REALMENTE É NOSSO, QUE NINGUÉM SE CORROMPE.

VAMOS FINGIR PARA ESSE SONHO NÃO ACABAR!

IMAGINAR QUE TODA ESSA QUIMERA TOME FORMA, PARA SE TORNAR REAL!
ANA VIRGÍNIA DE CARVALHO

 

AGIR PARA VENCER

PENSAR PARA ACERTAR.

CALAR PARA RESISTIR.

AGIR PARA VENCER.

RENATO KEHL

 

ORDEM DO DIA

Não chegaremos ao livro, sem leite e o pão,nem chegaremos ao pão sem a terra e sem o teto, nem chegaremos à terra sem liberdade e justiça, nem chegaremos à liberdade, sem coragem e honestidade, oh! a indispensável coragem para essa luta. Lutemos pois, – todos nós, – brancos, pretos e amarelos, que choramos e comemos, que crescemos e estudamos, que sofremos e construímos, como homens sem cor, todos nós que precisamos do mesmo leite branco e do mesmo livro, e da mesma terra, e da mesma liberdade para viver.

Viver. Ou até mesmo morrer, mas lutando.

J. G. de Araújo Jorge

 

Protesto tímido

Ainda a pouco eu vinha para casa a pé. Feliz da minha vida, e faltavam dez minutos para meia-noite. Perto da Praça General Osório, olhei para o lado e vi, junto a parede da esquina, algo que me pareceu uma trouxa de roupa, um saco de lixo. Alguns passos mais e pude ver que era um menino.
Escurinho, de seus seis ou sete anos, não mais. Deitado de lado, braços dobrados como dois gravetos, as mãos protegendo a cabeça. Tinha os gambitos também encolhidos e enfiados dentro da camisa de meia esburacada, para se defender contra o frio da noite. Estava dormindo, como podia estar morto. Outros, como eu, iam passando, sem tomar conhecimento de sua existência. Não era um ser humano, era um bicho, um saco de lixo mesmo, traste inútil, abandonado sobre a calçada. Um menor abandonado.
Quem nunca viu um menor abandonado? A cinco passos, na casa de suco de frutas, vários casais de jovens tomavam suco de frutas, alguns mastigavam sanduíches. Além, na esquina da praça, o carro da rádiopatrulha estacionado, dois boinas-pretas conversando do lado de fora. Ninguém tomava conhecimento da existência do menino.
Segundo as estatísticas, como ele existem nada menos que 25 milhões no Brasil, que se pode fazer? Qual seria a reação do menino se eu o acordasse para lhe dar todo o dinheiro que trazia no bolso? Resolveria o seu problema? O problema do menor abandonado? A injustiça social?

"A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
Murmuraste um protesto tímido"

Então vim para casa, os versos do poeta se repetindo na minha cabeça. Não sou poeta e minha prosaica competência se limita a este retângulo impresso, onde me cabe escrever amenidades sobre a vida de todo dia, para distrair o leitor. E convenhamos que não é nada ameno como assunto um menor abandonado que me pareceu a poucos passos um simples monte de lixo. Remover esse lixo? Pagar a taxa da Comlurb? Ou seria melhor incinerar? Dizem os entendidos que o problema é de ordem econômica, ou seja, mais de ordem técnica que de ordem moral. Precisamos enriquecer o país, produzir, economizar divisas, combater a inflação, pechinchar. O Brasil é feito por nós. Com isso, Todos os problemas se resolverão, inclusive o do menor abandonado.
Vinte e cinco Milhões de menores - um dado abstrato, que a imaginação não alcança. Um menino sem pai nem mãe, sem o que comer nem onde dormir: isto é um menor abandonado - hoje em dia designado eufemisticamente menino de rua. Para entender, só mesmo imaginando meu filho largado no mundo aos seis, oito, dez anos de idade, sem ter para onde ir nem para quem apelar. Imagino que ele venha a ser um desses que se esgueiram como ratos em torno aos botequins e lanchonetes e nos importunam cutucando-nos de leve - gesto que nos desperta mal contida irritação - para nos pedir um trocado. Não temos disposição sequer para olhá-lo e simplesmente o atendemos (ou não) para nos livrarmos depressa de sua incômoda presença. Com o sentimento que sufocamos no coração, escreveríamos toda a obra de Dickens. Mas estamos em pleno século 20, vivendo a era do progresso para o Brasil, conquistando um futuro melhor para os nossos filhos. Até lá, que o menor abandonado não chateie, isso é problema para o juizado de menores. Mesmo porque são todos delinquentes, pivetes na escola do crime, cedo terminarão na cadeia ou crivados de balas pelo Esquadrão da Morte.
Pode ser. Mas a verdade é que hoje eu vi meu filho dormindo na rua, exposto ao frio da noite, e além de nada ter feito por ele, ainda o confundi com um monte de lixo.

Fernando Sabino

 

EU, ETIQUETA

EM MINHA CALÇA ESTÁ GRUDADO UM NOME

QUE NÃO É MEU DE BATISMO OU DE CARTÓRIO,

UM NOME... ESTRANHO.

MEU BLUSÃO TRAZ LEMBRETE DE BEBIDA

QUE JAMAIS PUS NA BOCA, NESTA VIDA.

EM MINHA CAMISETA A MARCA DE CIGARRO

QUE NÃO FUMO, ATÉ HOJE NÃO FUMEI.

MINHAS MEIAS FALAM DE PRODUTO

QUE NUNCA EXPERIMENTEI

MAS SÃO COMUNICADOS A MEUS PÉS.

MEU TÊNIS É PROCLAMA COLORIDO

DE ALGUMA COISA NÃO PROVADA

POR ESTE PROVADOR DE LONGA IDADE.

MEU LENÇO, MEU RELÓGIO, MEU CHAVEIRO,

MINHA GRAVATA E CINTO E ESCOVA E PENTE,

MEU COPO, MINHA XÍCARA

MINHA TOALHA DE BANHO E SABONETE,

MEU ISSO, MEU AQUILO,

DESDE A CABEÇA AO BICO DOS SAPATOS,

SÃO MENSAGENS,

LETRAS FALANTES,

GRITOS VISUAIS,

ORDENS DE USO, ABUSO, REINCIDÊNCIA,

COSTUME, HÁBITO, PREMÊNCIA,

INDISPENSABILIDADE,

E FAZEM DE MIM HOMEM-ANÚNCIO INTINERANTE,

ESCRAVO DA MATÉRIA ANUNCIADA.

ESTOU, ESTOU NA MODA.

É DOCE ESTAR NA MODA, AINDA QUE A MODA

SEJA NEGAR MINHA IDENTIDADE,

TROCÁ-LA POR MIL, AÇAMBARCANDO

TODAS AS MARCAS REGISTRADAS,

TODOS OS LOGOTIPOS DO MERCADO.

COM QUE INOCÊNCIA DEMITO-ME DE SER

EU QUE ANTES ERA E ME SABIA

TÃO DIVERSO DE OUTROS, TÃO MIM MESMO,

SER PENSANTE, SENTINTE E SOLIDÁRIO

COM OUTROS SERES DIVERSOS E CONSCIENTES

DE SUA HUMANA, INVENCÍVEL CONDIÇÃO.

AGORA SOU ANÚNCIO,

ORA VULGAR ORA BIZARRO,

EM LÍNGUA NACIONAL OU EM QUALQUER LÍNGUA

(QUALQUER, PRINCIPALMENTE).

E NISTO ME COMPRAZO, TIRO GLÓRIA

DE MINHA ANULAÇÃO.

NÃO SOU – VÊ LÁ – ANÚNCIO CONTRATADO.

EU É QUE MIMOSAMENTE PAGO

PARA ANUNCIAR, PARA VENDER

EM BARES FESTAS PRAIAS PÉRGULAS PISCINAS,

E BEM À VISTA EXIBO ESTA ETIQUETA

GLOBAL NO CORPO QUE DESISTE

DE SER VESTE E SANDÁLIA DE UMA ESSÊNCIA

TÃO VIVA, INDEPENDENTE,

QUE MODA OU SUBORNO, ALGUM A COMPROMETE.

ONDE TEREI JOGADO FORA

MEU GOSTO E CAPACIDADE DE ESCOLHER,

MINHAS IDIOSSINCRASIAS TÃO PESSOAIS,

TÃO MINHAS QUE NO ROSTO SE ESPELHAVAM,

E CADA GESTO, CADA OLHAR,

CADA VINCO DA ROUPA

RESUMIA UMA ESTÉTICA?

HOJE SOU COSTURADO, SOU TECIDO,

SOU GRAVADO DE FORMA UNIVERSAL,

SAIO DA ESTAMPARIA, NÃO DE CASA,

DA VITRINE ME TIRAM, RECOLOCAM,

OBJETO PULSANTE MAS OBJETO

QUE SE OFERECE COMO SIGNO DE OUTROS

OBJETOS ESTÁTICOS, TARIFADOS.

POR ME OSTENTAR ASSIM, TÃO ORGULHOSO

DE SER NÃO EU, MAS ARTIGO INDUSTRIAL,

PEÇO QUE MEU NOME RETIFIQUEM.

JÁ NÃO ME CONVÉM O TÍTULO DE HOMEM.

MEU NOME NOVO É COISA.

EU SOU A COISA, COISAMENTE.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 

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